Vivências - Terapia Regressiva Vivencial

De Volta ao Passado

Estudos mostram que relatos feitos durante a terapia de vidas passadas não são pura elaboração. Mais um passo na busca da comprovação da existência de outras vidas

Chico Xavier se foi, mas sua obra ainda fará pensar estudiosos e cientistas. Toda a sua vida foi pontilhada por fenômenos que a ciência não consegue explicar. Há 30 anos, se tentou conhecer o que se passava em seu cérebro durante o transe. Procurava-se entender como textos que versavam sobre assuntos complexos poderiam sair da caneta de um homem simples, que mal cursara os primeiros anos de escola. Nada de anormal foi encontrado. A mediunidade, principalmente uma tão produtiva quanto a de Chico, ainda é uma incógnita. A reencarnação, outro pilar da crença espiritualista, também provoca os céticos de laboratório. Mas o assunto bate às portas da universidade, ora pela curiosidade dos fenômenos em si ora por seus efeitos. Na medicina e na psicologia, campos de estudos se mesclam. A terapia de vidas ou vivências passadas, em especial, exige essa atenção: pela regressão, os pacientes relatam situações que não têm ligação direta com sua vida atual.

Há dois anos, ISTOÉ divulgou o primeiro mapeamento de ondas cerebrais feito durante uma sessão de regressão (ISTOÉ 1594). O estudo do psicólogo Júlio Peres, do Instituto de Terapia Regressiva Vivencial Peres, de São Paulo, mostrava que a atividade cerebral é muito lenta, mesmo quando o paciente mostra reações como suor e taquicardia. Na época, Peres anunciou uma parceria de pesquisa com a Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, para monitorar o fluxo sanguíneo e as estruturas cerebrais acionadas durante a regressão. Quatro mulheres e dois homens sadios, com idades entre 28 e 39 anos, se submeteram a uma tomografia com emissão de radiofármaco (método spect), realizada no Hospital Beneficência Portuguesa, em São Paulo. Depois, seus exames foram analisados pelo médico Andrew Newberg, especialista em estados modificados de consciência da universidade americana. Finalizados, os estudos revelaram que as áreas do cérebro mais requisitadas neste processo são as do lobo médio temporal e as do lobo pré-frontal esquerdo, que respondem pela memória e pela emoção. É mais um passo na busca de comprovação de que essas experiências não são fruto da imaginação. “Se o paciente estivesse criando uma história, o lobo frontal seria acionado e a carga emocional não seria tão intensa”, explica Peres.

Pane – O interesse dos centros acadêmicos pela questão se justifica. Emoções negativas alteram o equilíbrio psicológico, biológico e social das pessoas, causando ansiedade, isolamento, distorções de identidade, fobias e doenças psicossomáticas. E os relatos de pessoas que se submetem à regressão e revivem traumas não relacionados com sua vida atual chamam a atenção. O trauma pode ser entendido como um acontecimento que excede a capacidade de compreensão do indivíduo, com informações que o sistema nervoso central não é capaz de interpretar, sintetizar e assimilar. Como uma pane. Durante a lembrança desses traumas, é mínima a quantidade de sangue no lobo parietal — área do cérebro que fornece a sensação de tempo e espaço e o senso de orientação - e as conexões são quase nulas. Utilizando um método próprio de terapia, Peres observou que, depois da reorientação feita no tratamento, os pacientes são capazes de rememorar os traumas sem repetir a pane mental.

Apesar de estar presente nos consultórios brasileiros há três décadas, a terapia de vidas passadas só ganhou popularidade no início da década de 90, com os livros do psiquiatra americano Brian Weiss. Médico do Mount Sinai Medical Center de Miami, ele foi surpreendido pelos relatos reencarnatórios de uma paciente alheia às teorias espiritualistas. Desde então, produziu sete livros (Ed. Sextante) que venderam mais de um milhão de exemplares no Brasil. Os terapeutas de vidas passadas dizem que não importa se as lembranças são reais ou imaginárias, o que interessa é a cura. A maioria separa a técnica dos credos religiosos. Ser uma terapia breve – de no máximo um ano – também agrada aos pacientes. Dentre as várias técnicas utilizadas, as mais comuns são o relaxamento e a hipnose. E há casos em que a regressão não acontece. Por isso, um aviso: não dá para fazer TVP para saber se fez parte da corte de Napoleão ou se foi a Rainha de Sabá.

Disquete – Mas há também os terapeutas que não vêm nenhum problema na união da religião com a psicologia. A carioca Célia Resende, 50 anos, autora do livro Terapia de vidas passadas (Ed. Record) assume a sua crença na reencarnação e usa uma figura tecnológica para explicar a relação corpo e espírito. “Quando a pessoa perde o corpo físico, é como se o computador tivesse pifado. Só que existe um disquete, a alma, possível de ser usado em outro computador.” Uma das primeiras a adotar a TVP no Brasil, a psicóloga paulista Elaine Gubeissi de Lucca também assume suas convicções. “A idéia de que vivemos muitas vidas é milenar. E o atendimento no consultório não deixa dúvidas quanto a essa realidade”, diz. No recém-lançado As faces do invisível (Edit. Harbra), Elaine coloca mais lenha na fogueira ao abordar a influência de espíritos na vida dos pacientes. “Os que compartilharam os traumas também podem ficar presos a essas situações e muitas vezes, sem conseguir reencarnar, acompanham a vida dos pacientes”, explica ela.

Um dos entraves das pesquisas científicas neste campo é o fato de o paciente se ater às emoções, o que torna pouco comum a revelação de datas, títulos e nome de países. Há, no entanto, na literatura científica relatos espontâneos de vidas passadas. O pesquisador Ian Stevenson, da Universidade de Virginia (EUA), colheu e checou 2.600 histórias. O professor Hernani Guimarães, do Instituto Brasileiro de Pesquisas Psicobiofísicas, também reuniu oito casos no livro Reencarnação no Brasil (Ed. O Clarim/1986). No ano passado, relançou Renasceu por amor (Edit. Folha Espírita/1995), no qual conta a história de um padre que, ao morrer jovem, retorna como filho de sua amada. “Os relatos espontâneos são em geral feitos por crianças. Elas não têm elementos para criar uma ilusão e seus casos são mais fáceis de comprovar devido à proximidade histórica”, explica o professor.

Com registros científicos ou não, a teoria de várias vidas não convence a psicanalista Beatriz Kuhn, do Rio. “No inconsciente está arquivado tudo o que vivemos nos primórdios da humanidade. É algo distante que pode dar a sensação de vida passada. Só isso”, rechaça. Para ela, acreditar na imortalidade faz parte de um processo de negação. “A morte é uma idéia insuportável e passamos a vida tentando escapar dela. Uma saída é inventar que as pessoas não morrem”, pondera. Não é o que dizia Chico Xavier. Como vivia praticamente em dois planos, passou suavemente para o lado de lá.

Tertuliano Pinheiro, secretário de Ação social do Rio Grande do Norte
“Sou um homem de bem com a vida, casado e pai de quatro filhos, mas tinha fobia de escuro. Só dormia de luz acesa e comecei a sofrer de depressão. Católico, não acreditava em reencarnação, mas depois de me tratar com remédios e terapia convencional, procurei a regressão. O processo foi avassalador. Vi algumas vidas, duas mais marcantes. Em uma era um homem poderoso e, em outra, um mendigo. Acredito, porque ninguém me contou, eu vi tudo, senti cheiros, frio e todos os tipos de sentimento. O coração bate forte, você sua e sofre tudo de novo. Eu temia a noite passada em becos escuros. Minha única companhia era um cão. Me livrei desse sentimento e mudei minhas convicções religiosas”

Verena Egli Spera, dentista
“No ano passado, procurei essa terapia por causa de uma enxaqueca e uma dor no pescoço insuportáveis. Eu não saía sem remédio. Na regressão, me vi como um jovem rico que morreu numa cilada armada pela madrasta e pela mulher amada. Ele recebeu uma flechada no olho, no lado da dor. Revivi a decepção e a morte e com o redirecionamento dessas emoções deixei-as lá no passado. Fiquei livre da dor por cinco meses. Num dia, ela voltou intensa e fiz outra regressão. Vi a moça amada daquela vida. Ela estava num plano imaterial e se sentia presa àquela morte. Me pedia desculpas. Foi o único episódio de dor forte desde então”

 

Fonte ISTOÉ Independente  Edição 1710 de 10.Julho.02 Atualizado em 05.Jan.14 - 22:02  

 

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